Como precificar procedimento estético sem trabalhar de graça
Preço copiado da concorrente é preço que paga os custos dela, não os seus. A fórmula é simples — o que falta é levantar quatro números.

Você olhou o Instagram de três clínicas da região, viu que a limpeza de pele está entre R$ 120 e R$ 180, e colocou R$ 150. Pronto, precificado.
O problema é que R$ 150 paga os custos delas. A sua sala pode ser mais cara, o seu produto melhor, o seu tempo de procedimento maior. Copiar preço é copiar a estrutura de custo de outra pessoa — e você só descobre que não fechou lá na frente, quando a agenda está cheia e a conta não sobra.
A fórmula é simples: custo direto + custo da sua hora + margem. O que falta na maioria das clínicas não é a fórmula — é ter os quatro números que entram nela.
Os quatro números que você precisa levantar
1. Custo direto do procedimento
Tudo que some quando você faz um atendimento: produto usado (a fração real do frasco, não o frasco), descartáveis, lençol, luva, máscara, algodão, gaze, embalagem, brinde se houver.
Um erro comum aqui: usar o preço do frasco inteiro. Se o frasco de R$ 240 rende 30 aplicações, o custo é R$ 8 — mas se rende 12, é R$ 20. Conte quantas aplicações saem de verdade.
2. Custo fixo por hora aberta
Aluguel, energia, água, internet, sistema, contador, salário fixo, limpeza, autoclave, seguro. Tudo que você paga mesmo sem atender ninguém.
custo fixo por hora = total de custos fixos do mês ÷ horas que a clínica fica aberta no mês
Exemplo: R$ 6.000 de custos fixos ÷ 176 horas (8h por dia, 22 dias) = R$ 34 por hora aberta.
3. O tempo real do procedimento
Não é o tempo na maca. É o tempo que aquele horário ocupa: preparo da sala, o atendimento, a conversa do fim, a limpeza e a troca. Uma limpeza de pele "de uma hora" costuma ocupar 1h20.
4. A comissão, se houver
Se quem executa recebe percentual, ele entra no custo do procedimento — não sai da sua margem depois.
A fórmula
Preço = (custo direto + custo fixo da hora × tempo ocupado) ÷ (1 − margem − comissão − taxas)
Dividir em vez de somar a margem é o que a maioria erra. Se você quer 30% de margem e soma 30% ao custo, a margem real fica em 23%. Dividir é o que entrega a margem que você pediu.
Exemplo completo: limpeza de pele
| Item | Valor |
|---|---|
| Custo direto (produtos + descartáveis) | R$ 18,00 |
| Tempo ocupado | 1,3 hora |
| Custo fixo da hora | R$ 34,00 |
| Custo fixo alocado (1,3 × 34) | R$ 44,20 |
| Custo total | R$ 62,20 |
Com margem desejada de 30%, comissão de 20% e taxas de cartão/imposto de 10%:
Preço = 62,20 ÷ (1 − 0,30 − 0,20 − 0,10) = 62,20 ÷ 0,40 = R$ 155,50
Arredondando: R$ 159.
Repare no que aconteceu: o preço que você tinha chutado olhando a concorrência (R$ 150) estava abaixo do que a sua estrutura pede. Não por muito — mas o suficiente para, ao longo de um ano, a agenda cheia não virar lucro.
A conta do pacote, que é onde se perde dinheiro
Pacote de dez sessões com 20% de desconto parece justo. Mas o desconto sai inteiro da margem, não do custo: o produto e a hora continuam custando igual.
Com o exemplo acima: dez sessões a R$ 159 = R$ 1.590. Com 20% de desconto, R$ 1.272 — R$ 127,20 por sessão, contra um custo de R$ 62,20. A margem despencou de 30% para perto de 9% depois de comissão e taxas.
O que justifica o desconto do pacote não é a venda maior: é o que ele economiza. Ele garante agenda, reduz o custo de vender de novo a cada sessão e recebe adiantado. Se o desconto for maior que essa economia, o pacote vira volume sem resultado.
Regra prática: calcule o preço do pacote pela margem que sobra, não pelo percentual que soa bem. E lembre que pacote é dinheiro recebido por serviço ainda não entregue — o controle do saldo é o que impede a segunda perda.
Quando o preço calculado é maior que o do mercado
Acontece, e é informação — não erro. Três leituras possíveis:
O seu custo está alto. Produto caro demais para o resultado, sala grande demais para a ocupação, tempo de procedimento acima do necessário.
A sua ocupação está baixa. O custo fixo por hora cai quando a agenda enche. A R$ 34 a hora com 50% de ocupação, você está alocando o dobro do necessário em cada atendimento.
A concorrente está trabalhando de graça e não sabe. É o mais comum, e é por isso que copiar preço é perigoso: você pode estar copiando o preço de quem vai fechar.
O que precisa estar no sistema para essa conta existir
A fórmula é fácil. O que trava é não ter os números.

Se o procedimento tem duração, preço e insumo cadastrados, a comanda fechada já registra o que saiu do estoque naquele atendimento.

O custo fixo do mês vem daqui — e é o único número da fórmula que você não consegue estimar de cabeça.
Com procedimento, insumo e financeiro no mesmo lugar, a revisão de preço deixa de ser um projeto de fim de semana e vira uma conferência de vinte minutos por trimestre.
Perguntas frequentes
De quanto em quanto tempo devo revisar meus preços?
A cada seis meses, e sempre que um custo relevante mudar — aluguel, produto principal, salário. Revisar não significa aumentar; significa saber se ainda fecha.
Qual margem é razoável na estética?
Depende demais da estrutura para existir um número único. O critério útil é outro: a margem precisa cobrir o que a clínica quer fazer no ano (repor equipamento, formar equipe, crescer) e ainda pagar você. Margem que só paga as contas do mês é margem zero disfarçada.
Como precificar procedimento que usa aparelho caro?
Inclua a depreciação: valor do aparelho ÷ número estimado de sessões na vida útil dele. Se você não incluir, está financiando o equipamento com a sua margem.
Posso ter preços diferentes por profissional?
Pode, e é comum quando há diferença clara de experiência. O que não funciona é preço diferente sem critério visível — isso a paciente descobre e entende como desorganização.
E o preço de amiga?
É a exceção que come a margem sem aparecer em lugar nenhum. Tem texto só sobre isso: cobrar de amiga e de familiar.
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